domingo, 14 de outubro de 2012

10KKKKK


Seis horas da manhã. Seis e cinco, mais precisamente. Abro os olhos, e está tudo muito escuro e frio. O alarme deveria tocar dali 55 minutos, mas a ansiedade do acontecimento que se daria naquela manhã e o medo de perder a hora não me deixaram voltar ao sono do qual emergi. Enrolei enquanto pude, e levantei pontualmente 7 horas. Mentira. Levantei 7h15, porque, por algum motivo bizarro, assim que deu 7 horas, me deu um sono que desmaiei pelos próximos 15 minutos. Mas enfim, levantei. E me vesti, e comi meus últimos carbohidratos. E dei um beijinho na Mi, e parti. Andei até Barceloneta, muito focado sempre, e foi como se o tempo tivesse passado instantaneamente, porque em poucos segundos já estava me aquecendo atrás da linha de partida.

Vou tentar ser rápido no meu discurso. Ao menos mais rápido do que fui nesta corrida. Prometo. Mentira de novo.

Então tá. Começa a corrida, e eu lá, parado. Isso é normal, devido ao grande número de pessoas que estão na sua frente. Igual trânsito em São Paulo, quando abre o sinal, e a gente só anda quando o sinal fechou de novo. Mas depois de quase dois minutos e meio, finalmente cruzei a linha de largada.

Eu costumava correr assim: primeiro eu disparava, até o km 2,5. Aí rastejava de volta até o km 2, procurando meu pulmão, e o resto da corrida eu andava. Corria aqui e ali, mas geralmente 90% da corrida era andada. E assim que eu cruzei aquela linha de saída, disse pra mim mesmo que iria correr os 10km. Nem que levasse a semana toda. Armei, baseado nesta resolução, minha estratégia.

Comecei correndo num ritmo bom pra mim, o que significa, em termos técnicos, um ritmo de 8m/km mais ou menos. Não deixaria que os gritos, a música alta e frenética e os demais concorrentes me fizessem sair do ritmo pré-estabelecido. E fui firme, nos primeiros dois quilômetros. Firme mesmo. Não me deixei alterar. E olha que era duro, muito difícil mesmo, ver um bando de gordinho com tênis não próprio para corrida, trios e quartetos correndo e conversando feito gralhas e idosas e idosos, todos me passando e num ritmo muito maior que o meu. E foi assim que, em minutos, vi quase todos os corredores me ultrapassando, e abrindo uma vantagem insuperável.

Inclusive uma senhora, que me passou com certa dificuldade, tadinha, no alto dos seus prováveis 96, 97 anos. Dava pra ver o esforço impresso em seu rosto. Quando ela estava há uns 50 metros de mim, ela teve um mal súbito, e caiu ali, dura. E, mesmo assim, caída e dura, a filha da puta ainda era mais rápida que eu. Mas enfim, eu estava focado de verdade. Há muito tempo estava me preparando para esta volta às ruas.

Depois do km 3, passei por um grupo de 4 homens que estava sentado à beira da nossa passagem. Eu, de cabeça baixa, correndo lentamente, ouvi meu nome sendo gritado por eles. Isso porque meu nome aparece no dorsal - número de peito dos corredores. Um deles disse: levanta a cabeça, Fernando! Você vai conseguir! Isso me deu uma força tamanha que não posso nem começar a expressar. Pena que não pude parar para explicar para ele que eu estava correndo com a cabeça para baixo porque não queria que minha língua arrastasse no chão, e estava usando meu queixo para segurá-la. E segui em frente, fazendo um número 2 com a mão esquerda. Não, não era o "v" da vitória. Era o "v" de "ventrículo esquerdo", que já não funcionava.

À partir daí, a corrida entrou numa certa monotonia. Mas uma monotonia boa, porque é quando seu corpo aceita o desafio e topa o sacrifício. É quando, geralmente, quem toma conta é o emocional. Aí, como diria minha amada filha quando tinha 4 aninhos: aí fodeu, né pai? Até o km 5 foi uma confusão de emoções. Eu estava com fones de ouvido, escutando músicas previamente e cuidadosamente selecionadas. Eu me emocionava, ria, chorava, cantava, dançava, tudo junto. E, ao passar do km 5, voltei ao meu estado de consciência normal - que já é bem anormal - e continuei me focando na corrida.

Passei a admirar todo o caminho. Os prédios, construções, o parque, a cidade. Enquanto isso, comecei a ultrapassar várias pessoas. Muitas daquelas que haviam me passado no princípio da corrida, e que me causaram a raiva que já descrevi. Essas pessoas estavam já andando, sem fôlego algum. Passei por elas e, do alto da minha sabedoria e experiência adquiridas em mais de 35 anos de vida, sorri para elas. E pensei: se foderam!

No km 7, alcancei um senhor catalão, que caminhava e ofegava bastante. Preocupado com seu estado físico, resolvi parar para ver como ele estava. Mas minha mente, focada na corrida, mandou o velho à merda e continuou nos 8m/km. Dali um tempo, eis que o velho me passa de novo, num pique assustador. Pique este que durou apenas alguns segundos. E lá estava de novo o velho ofegante, caminhando. E lá ia eu ultrapassá-lo de novo. Mas desta vez, mente e alma mandaram o velho às favas. Essa brincadeira continuou até o km 8, quando o velho finalmente me viu ultrapassá-lo e disse: continue, que eu desisto. Não aguento mais. Desta vez, minha mente entendeu o recado, e usou o fato como combustível para o foco que estava se esgotando. Já a alma mandou o velho se foder pela sexta vez.

O km 9 foi o pior. Eu via que estava perto, bem perto da linha de chegada. Mas não diminuí o ritmo, jamais. E foi na última reta, antes de chegar, que, ainda correndo, olhei para esquerda e vi a praia, e o mar, e o céu. E me senti vivo. Vivo de verdade. Eu me senti ali, correndo, sentindo as dores que sentia, notando cada gota de suor que transbordava meus poros. Um momento inesquecível.

Perto da chegada, vi a Mi, ali toda feliz, me esperando. Ela, com o celular na mão, pronta para tirar uma foto do atleta aqui. Ao lado, nossa companheira de piso, Irina. Abri um sorriso imenso, olhei para elas e dei aquela piscadela marota. A Mi apertou o botão. E eis a foto do atleta:


Tá me vendo? Não? Estou atrás da Leila, a filha da puta de azul. Estou pensando até em imprimir e enquadrar esta foto. E enviar pra porra da Leila.

Mas daí a Mi se redimiu em seguida, e tirou minha foto quando eu estava para cruzar a linha de chegada:


Vocês conseguem ver minha cara de felicidade e alegria pelo desafio batido? Não? Nem eu.

Mas o importante é que cheguei. Ouvi o locutor dizendo meu nome, e cheguei. Dez quilômetros, sem parar. Não andei, não marchei. Só corri. O tempo inteiro. Estou sim orgulhoso de mim, e não tenho nenhum problema em dizer isto. Quem me conhece sabe que não me dou bem com elogios, e prefiro tirar sarro de mim mesmo quando estou escrevendo um texto ou contando uma história. Desta vez, ao menos por um parágrafo, vou ser sincero. Tive orgulho de mim mesmo.

Ao chegar, tirei o chip de cronometragem e fui pra fila dos presentinhos, que sempre tem depois das corridas. Primeiro item, água! Hmmm, água. Não bebia água desde o km 5! "Não temos mais água, senhor." Bosta. Segundo item, lanche. Geralmente eles dão barrinhas de cereal ou frutas. "Só sobraram esses sacos de batata frita Lays sabor barbacoa, senhor." Bosta. Terceiro item, suco de laranja ou limão. "Acabou tudo, senhor." E o que é que tem pra beber então? "Cerveja, senhor." Cerveja? "É, senhor." Desce uma breja gelada então. E bebi a cerveja. E eu não bebo! Mas enfim, eu tinha acabado de correr 10km. Precisava beber algo. E bebi. Para provar que o fiz, aí está a foto:


Enfim, essa foi minha corrida 10K. Eu voltei pra casa caminhando, feliz da vida. Obviamente, como era de se esperar, com o passar do dia comecei a sentir as dores do esforço. Primeiro as costas, depois o joelho, as coxas, o mamilo direito - sim, o mamilo direito -, os pés, as mãos, os cílios, tudo. Dói tudo. Mas isso não é o bastante para me parar. Prometo que vou treinar mais, e me cuidar mais, e me preparar melhor para a próxima corrida. Prometo que farei tudo isso. Logo que sair do coma.

ps.: Este artigo foi gentilmente digitado pela enfermeira Dona Girona, que transcreveu os bips que eu emitia através do meu eletrocardiograma.

domingo, 18 de março de 2012

Entrevista

(Entrevista pessoal e virtual, praticamente psíquica, realizada conceitualmente nos últimos 2 meses e meio. As perguntas, naturalmente, vieram primeiro. As respostas, estranhamente, também.)

Cadê vocês?
Estamos aqui, em Barcelona, Espanha. Voltamos do Brasil em novembro de 2011, depois de uma visita deliciosa. Revimos família, amigos, mas não todos, infelizmente. Mas voltamos para cá, pra rotina que acompanha a gente desde outubro de 2010.

Então, o que aconteceu? Por que não tem mais posts no blog, ou vídeos no YouTube, nem nada?
Por isso mesmo. A rotina. A cidade continua a mesma, mas nós, como pessoas, como um casal tentando a vida por aqui, nós mudamos. Crescemos. É uma outra rotina, claro, mas é rotina. Igual sorvete. Portanto, quando voltamos, decidimos que era hora de finalmente achar um emprego. Por isso ficamos horas, dias, meses aqui, na frente do computador, mandando currículos, procurando contatos, preenchendo formulários e fazendo contas. Foi um tempo bem, bem complicado. As malas estavam prontas, e quase voltamos de vez para o Brasil.

E o que aconteceu?
Bom, aconteceu o que queríamos. Conseguimos um emprego. Um não. Dois. Um pra mim, um para a Mi.

Não brinca!? Que trabalhos são esses?
Bom, eu estou trabalhando para uma empresa de importação e exportação, como desenhador gráfico, em uma cidade perto de Barcelona, chamada Gavà. E a Mi trabalha em uma loja, em Barcelona mesmo, pertinho da Sagrada Família.

E por que vocês não falaram nada?
Porque emprego novo é como gravidez. É preciso esperar um tempo antes de anunciar oficialmente, para evitar decepções ou falsas expectativas.

E quais os planos para o futuro?
Em relação a que exatamente?

Para o futuro deste blog.
Quero que o blog continue, apesar do acesso ser muito abaixo do esperado. Acho que as pessoas ou estão muito ocupadas, ou sei lá. Não sei, acho que criei vários posts interessantes e tal, mas não foi o suficiente. Mas independente disso, quero continuar tendo este espaço, para me expressar, porque amo escrever, e também em respeito às pessoas que acompanhavam nossos passos por aqui. Todas as 5 pessoas que acompanhavam nossos passos por aqui. Mas definitivamente o foco vai mudar. E o próximo post deste blog será sobre isto - em breve.

E os vídeos?
Os vídeos, não prometo. Menos tempo para editar e criar efeitos e aprender a criar efeitos. E não vou postar só por postar um vídeo. Mas se eu pensar em algum projeto interessante e fácil de fazer e de editar e de manter, tudo pode mudar. Quem sabe?

E para a o futuro de vocês?
Nosso futuro está sendo escrito agora. Ainda estamos nos adaptando. Não à cidade ou à língua, mas à esta nova situação. Então evitamos fazer grandes planos a longo prazo. Ainda estamos estudando o terreno, vendo quão fundo podemos cavar, que é o que define quão alto podemos ir. Então, por enquanto, nossa principal aspiração é manter nossos empregos. E comprar um outro armário, que o nosso está quase se desfazendo - literalmente.

E como vocês estão por aí?
Bem, estamos bem. A saudade continua, claro. Mas estar aqui trabalhando em plena crise da comunidade europeia enquanto quase 6 milhões de espanhóis sobrevivem com o seguro-desemprego é uma grande conquista. Então estamos valorizando isto, vivendo o presente e aproveitando o que podemos.

Vocês voltam para o Brasil? Alguma data, ou previsão?
Não sabemos de nada ainda. Sei que vamos receber algumas visitas, e em breve. O que é até preferível, na verdade. Principalmente porque não envolve minha pessoa entrando num avião para 12 horas de viagem a quase 1.000 milhas/hora.

Alguma mensagem para seus leitores?
Aos que acompanhavam a gente, e liam e comentavam os posts: aguardem em breve um novo projeto. Aos que estão chegando agora: bem vindos! Vejam os posts anteriores, os vídeos, e se inscrevam para receber as atualizações do blog. E aos que vieram eventualmente no passado e resolveram, por um motivo ou outro, não voltar: fodam-se.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Diada Catalunya

Era 11 de setembro de 1714. As tropas borbônicas comandadas pelo Duque de Berwick pela Guerra de Sucesión Española atacaram Barcelona durante meses até este fatídico dia, quando a cidade, finalmente, sucumbiu. A Catalunha, que era uma nação soberana, perdeu todos os seus direitos como país. Perdeu sua legislação, e toda e qualquer manifestação de sua cultura e língua foi abolida.

Com a Segunda República Española (1931), a Catalunha preparou um Estatuto de Soberania, que devolveu algumas de suas liberdades. Infelizmente, naquela década (1936 a 1939), por conta da Guerra Civil Española, a região é vítima de repressão e perde, novamente, seus direitos.

Apenas em 1980, quando é estabelecido o Parlamento da Catalunha, o dia 11 de setembro se torna Feriado Nacional, para relembrar a queda de Barcelona em 1714, e a luta que, a partir de então, a Catalunha trava para conseguir, uma vez mais, se tornar uma nação soberana.

As ruas se encheram de festividades e comemorações. O listrado amarelho e vermelho decoravam as janelas e postes da cidade. Atos, passeatas, gritos de ordem. A venda de bandeiras, camisetas e produtos catalãos era massiva na região do Arc de Triomf. Uma gigantesca bandeira foi pendurada no vão do arco. Nela, além do listrado tradicional, um triângulo azul que traz uma estrela branca no centro forma o desenho completo da flâmula da futura nação da Catalunha, pois o deejo de uma parcela da população é a independência.

Este, aliás, foi o mote da festa. Independência. E, mais do que palavras, imagens mostram o que foi o dia 11 de setembro de 2011 aqui, do lado de casa.


É, nosso blog também é cultura! Tá pensando o quê?

É isso então, pessoal. Vamos ficando por aqui. A correria é muita, e o tempo é curto. Semana que vem estaremos no Brasil. Continuaremos, claro, dando notícias nossas por aqui, YouTube, Facebook, Skype, etc, etc. Aguardem!

Besitos independentes

Nando (e Mi, colando no armário uns espelhos que achamos hoje na rua. Pois é, depois eu explico num próximo post!)

domingo, 4 de setembro de 2011

Ói nóis aqui travêiz!

Julho, Agosto, Setembro. Putz, quase 3 meses sem postar nada. Isso não quer dizer que não damos notícias. Isso quer dizer que a vida continua, que o dia a dia daqui é igual o daí. Além disso, continuamos "falando" com amigos e familiares no Facebook, Skype etc.

Senti falta de escrever aqui. As últimas semanas foram uma loucura! Trabalho, viagem, encontros. Muito para contar. Mas não aqui, e não agora. Em breve.

Hoje, eu e a Mi fomos à marina de Barcelona, onde foi festejado o Dia de Brasil. Não ficamos muito, porque ontem a Mi fez plantão, e deixei a pobre dormir até o começo da tarde. Ela precisava e merecia um descanso desses. E eu? Afinal de contas, fui encontrá-la na porta do metro lá pelas 2h15 da matina. Eu não preciso nem mereço. Acordei mais cedo, trabalhei um pouco, pra variar, e saí para comprar o jornal de domingo.

Depois de um almocinho básico no McDonalds, com direito a anéis de cebola e asinha de frango com molho picante (nham nham nham), fomos à festa.

Curtam então o vlog que fiz, e já voltamos a conversar.



É isso aí. Aparentemente perdi um pouco a mão dos vlogs, mas prometo voltar com tudo nas próximas 3 semanas. Começando amanhã, segunda-feira. Como se fosse dieta. E por falar em dieta... Que vergonha. Nem Photoshop dava jeito naquela barriguinha. Mas vou melhorar. Vou chegar no Brasil bem melhor. Prometo.

Bem-vindos(as) de volta!

Besitos gordinhos

Nando (e Mi, cantando Erreway tão alto que EU vou ficar rebelde*).

*Erreway era o nome da banda formada na novela/série Rebelde Way, da Argentina. Estamos trabalhando nela. Desculpe pela piada interna, mas eu só queria fazer a Mi rir. Primeiro ela, depois vocês. Não é assim que tem que ser?

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Surpresa!

Sim, querido telespectador. Ontem foi meu aniversário. Mais uma primavera. Mais uma velinha no bolo. Menos um número na contagem regressiva da vida. Finalmente cheguei na idade tão sonhada por mim e por muitos: 21 anos.

Sinto que agora sim a minha vida vai pra frente. Novos desafios; dificuldades; injustiças; improbabilidades: venham todos. Estou pronto para a maioridade e suas consequências. Já estou me preparando para tirar minha carteira de motorista e meu título de eleitor. Minha vida, a partir de agora, será uma aventura! Quero sair por aí, viajar de mochilão, ir pra Disney conhecer o Pateta, dançar funk na Mangueira (no morro, que fique claro), encher a cara em Salvador, encher a cara na Oktoberfest, encher a cara em Búzios, fazer churrascos com os amigos do Imaculada, pichar muros, destruir telefones públicos, pintar a cara dos amigos bêbados. Enfim, aproveitar a vida.

Bem vindo, "21", e bora começar a viver!

Ah, como seria bom se fosse verdade. Fazer "21" anos de novo. Mas tudo isso não passou de ilusão. Um delírio de um cara peludo em tempos de calor de 40 graus, que não dorme bem à noite há 2 semanas mais ou menos, por conta do volumoso colchão de pelos que possui na região torácica do peito.

Minha vontade era arrancar a minha própria pele e usá-la de abano. Ou passar Vick no corpo, chupar um Halls Preto e beber água de bebedouro.

Agora, além das minhas viagens e palhaçadas até agora, preciso descrever algo muito legal que me aconteceu hoje. E, claro, como foi comigo, tinha que dar alguma merda, né? Literalmente.

Bom, vamos lá. Hoje nossa companheira de casa, cujo nome não mencionarei porque não sei quem sabe disso e quem não sabe (Fernanda Mello) foi-se de volta para o Brasil. Nós, que ficamos, estamos meio tristes, meio felizes. Tristes pela ausência, e felizes por sabermos que era o que ela queria, do jeito que ela queria.

Mas como este blog é meu, voltemos o foco para mim, pode ser? Continuando.

Resolvi não ir ao aeroporto acompanhá-la. Sou contra despedidas. Não fazem bem. Acabei ficando sozinho em casa, aguardando notícias e me abanando com o que tivesse na mão (livros, cadernos, copos, mouse...). De repente, toca o interfone. Béééé (é um som de ovelha rouca).

-Oi?
-Fernando Freitas?
-É ele.
-Você pode descer, por favor?

Putz. A polícia. O que é que eu fiz de errado agora? Não sabia, não lembrava, mas, mesmo assim, sabia que era provável eu ter feito alguma merda. Sei lá o quê, mas devo ter feito. Vim para o quarto correndo e me livrei de prováveis provas: fechei os sites pornôs do computador, dei descarga nas drogas e joguei pela janela o corpo que guardava no armário. Coloquei meu tênis e voei até a porta de entrada do apartamento.

Abri a porta e chamei o elevador. Prontamente lá estava o velho caixote de madeira. E, dentro, uma pessoa uniformizada. Não, não era a polícia. Era o entregador da UPS, com uma caixa bege-padrão, e um olhar estranho para mim.

-Ah, eu já estava descendo. Tudo bem?
-Assine aqui por favor.
-Claro. O dia est...
-Só assine aqui, por favor.

Assinei.

-Pronto.
-Nome e sobrenome, por favor?
-Fernando Freitas.

Ele recolheu a máquina que digitalizou minha assinatura, me olhou feio, com a boca em diagonal, como um desenho animado. Fechou a porta do elevador e foi embora.

Achei estranho aquilo tudo, mas, naquela hora, nem percebi direito suas ações e reações, porque, assim que ele abriu a porta do elevador para me entregar o pacote, eu percebi. Ele soltou um pum lá dentro, e o lugar estava fedendo.

Não é fedendo. É fedendo, e fedendo muito. Não sei, talvez ele tenha almoçado lixo radioativo, ou ainda o coitado estivesse participando de alguma pesquisa gastrointestinal, sei lá. Só sei que se o Van Gogh estivesse lá naquele momento, ele não teria cortado a orelha. Teria cortado o nariz.

Assinei o mais rápido que eu pude. Nem sei se acertei minha assinatura. Acho que, inconscientemente, ao invés de escrever meu nome, escrevi 'Socorro, me acudam'.

Deixei a área do elevador o mais rápido que pude. Entrei em casa, e, aliviado, respirei fundo. Que erro, meu São João do Odor Forte. Que erro.

Eu estava impregnado. A coisa estava presa em mim feito tatuagem. Andei para o meu quarto, tentando me soltar do rastro. Sabe, como quando éramos crianças, que a gente soltava um pum e saia correndo bem rápido para cortar o rastro? Ou era só eu? Quer dizer, eu não, um amigo meu. Bom, sigamos.

Pois é. Cheguei no meu quarto. Cheguei não. Chegamos. Eu, o pacote e o futum, meu mais novo melhor amigo. Sentei e tentei recuperar o raciocínio e a visão do olho esquerdo. E o cheiro não me largava.

-Esse cara é poderoso. -pensei, em agonia.

Resolvi registrar, a partir daí, tudo o que aconteceria. Filmei tudo, praticamente não editei nada, e disponibilizo-o agora, para vocês.



Resumindo: eu adorei meu presente. De verdade. Sou apreciador de comidas variadas, principalmente para 'picar' (beliscar espanhol). Fora a mensagem enviada com o pacote, da minha família que amo e nunca esqueço um só dia. Emocionante. Tive que engolir pra não fazer papelão na frente de vocês (E isso vindo do cara que balançou livremente nas areias de Barcelona. Putz!).

Agora. Bolachas de Gruyère, bolachas de Gouda e 250g do mais puro Camembert fechados dentro de uma caixa por horas, imagina a cena. A cena não, o cheiro. Dá pra ver no vídeo que eu cheiro todos os produtos, e descubro, ali, ao vivo, a origem da confusão. No minuto 4:02, dá pra ver que, por alguns segundos, eu chego a perder a consciência.

E eu aqui, julgando o pobre entregador, que, a essa hora, deve estar no lava-rápido, dentro do carro e de janelas abertas, gritando:

-Fernando Freitas. Nunca mais! Fernando Freitas!

Brincadeiras a parte, obrigado novamente pelo presente. É tudo uma delícia, de verdade. Não quis magoar meus presenteadores, de forma nenhuma. Mas, na boa, se a bola quica na área, eu chuto mesmo! E de efeito, pro gol ser mais bonito. Mas quem me conhece vai me compreender. Eu sou assim mesmo. Torto, errado, politicamente-incorreto. E velho.

Agora com licença que vou tomar banho. Pra sempre.

Besitos de dariz tabado

Nando (e Mi, que já-já vai entrar aqui berrando: "Deixa seu tênis lá fora, pô!")

quarta-feira, 15 de junho de 2011

O tempo esquentou

Fiz esse vídeo hoje, dia 15 de junho. Trabalhei bastante, até umas 16h, e decidi ir à praia com a Mi. Afinal de contas, com um céu azul desses, um sol que vai até quase 10 horas da noite, e um calor abafado, não tem quem resista.

Fomos, fiz o vídeo e editei o mais rápido que pude. Queria compartilhar meu novo desafio vencido. Menos um item na minha lista. Vejam e aproveitem. Ou não, como diria Caetano.



E foi isso. Estamos bem, e vocês? Comentem, compartilhem, espalhem. Ajudem este pobre casal a ser bem visto e bem quisto por aí!

Beijos naturebas

Nando (e Mi, vermelha até o dedão do pé, de vergonha alheia)

sábado, 11 de junho de 2011

Barcelona é um saco

Sábado, céu azul após dias intermináveis de chuva, a Mi trabalhando pacas e perspectiva de um dia preguiçoso.

Nada disso, minha gente. Levanta, sacode a poeira e vamos bater perna. Certo? Certo.

Me arrumei, me despedi e sai em busca de aventura. Resolvi, após meses e meses, andar novamente por ruas desconhecidas. Queria um dia para conhecer o que ainda não vi de Barcelona. Mas nada turístico ou mapeado. Algo, digamos, inusitado.

Subi a Princesa e fui até a praça da Catedral. Andei em direção à Rambla, até a Art Montfalcon, uma loja super interessante. Sim, sim, é uma loja para turistas. Mas fui comprar uma carteira para a Mi. Recebi uma dica da nossa antiga companheira de piso, Lauri, e resolvi arriscar. Infelizmente, as carteiras são meio caras - uma média de 20€ -, e achei perigoso comprar qualquer uma delas sem a presença da futura-usuária-da-mesma para escolher e decidir.

Saí de mãos abanando, mas, pelo menos, a carteira continuou cheia.

Voltei pelas ruelas até a Jaume, onde fui parado por um turista - acho que brasileiro - pedindo informação. Ele se esforçou no castelhano para perguntar a respeito da Basílica Santa María del Mar. Eu respondi, também em castelhano. Por sorte eu sabia onde era. Era lá perto, e as instruções eram simples. Eu acho bacana quando um turista se esforça para falar a língua do país visitado.

Resolvi ir à praia. O sol estava quente, as ruas, lotadas, e não queria voltar para casa tão cedo. Andei até a prefeitura e virei à esquerda. Pronto. Nova rua, novas lojas e mercados. Era o que eu queria. Descobrir. E foi assim, andando e observando, que vi o Miba - Museu de Ideias e Invenções de Barcelona.

Fantástico. Não entrei, mas vi vários itens numa espécie de vitrine, e algumas, inclusive, à venda. Como a capa de sapato, para chuva; O recipiente de microondas para fazer ovo quadrado; Almofada lavável, que vem com uma caneta tipo 'pilot' para anotar recados e mensagens; Guardanapo com bolso, para guardar o celular durante um jantar fora (nele, lê-se 'eu desligo meu telefone para você!'); E várias outras coisas. Tinha até um guarda-chuva com cinto de segurança, para os dias de ventania. E, caso a ventania fosse muita, um guarda-chuva 'usável', como uma espécie de capacete inflado, ou coisa do gênero. Bem bacana mesmo. Alguns painéis de vidro no chão deixavam o visitante espiar a área interna do museu. Ficou para a próxima. Saí com a cabeça cheia de imagens e ideias, e a carteira mais cheia ainda - teoricamente, claro.

Continuei na mesma rua, e algumas quadras depois, virei à esquerda. Eu estava reconhecendo aquela rua. Lá, eu e a Mi, ainda desesperados, desocupados e desnorteados, com cerca de 10 dias de Barcelona, passamos à procura do Cantinho Brasileiro. Um bar que, como o próprio nome diz, é brasileiro. Sentamos, tomamos guaraná e... Bom, para relembrar, reveja o post - clique aqui.

Continuando. Virei à direita e vi, finalmente, a marina. O número de pessoas aumentava. As barracas de quinquilharias se aglomeravam na calçada. Os restaurantes estavam cheios. O trânsito de bicicletas era intenso. Caminhei os 10 minutos que me separavam do Mediterrâneo ávido pela brisa marinha, o cheiro da areia e os sons marítimos. E antes dos 10 minutos, lá estava.

Não sei, acho que fiquei ali, parado, por uns cinco minutos, no mínimo. Não me lembro do que pensei. Só observava aquela beleza. Não o mar em si, nada de beleza da natureza, mesmo porque sou bem urbano. Não é isso. É a cena em si, sabe? Eu estava comentando com a Mi que, no Brasil, quando a gente resolvia descer para o Guarujá - praia onde passamos a grande maioria de nossas férias -, dependendo do tempo de estadia, praia era obrigação. Explico.

Se eu fosse ao Guarujá numa sexta para voltar no domingo, eu teria que ir à praia sábado e domingo, mesmo se o sol não fosse lá essas coisas. Mesmo se uma garoazinha pairasse durante o dia. Mesmo se a areia virasse lama e o mar secasse. A gente tinha que ir à praia. Só assim aproveitaríamos a viagem, sabe? Obrigação. Eu nunca vivi essa situação, de pensar 'Ah, o tempo está bom. Vou pra praia', ou 'Puxa, está um vento frio, mas o céu está claro, quero ver a cor do mar hoje'. Então, é isso. Essa é a beleza sobre a qual refleti no parágrafo acima.

À minha esquerda havia um grande lote de praia, cheia de gente andando. Eu já havia caminhado por aquela calçada antes. Com a Mi, com a Rô e o Dé. Resolvi virar à direita. Havia só mais um tanto de praia, coisa de 5 minutos de caminhada apenas. Mas, dentro da minha proposta de hoje, aquele naco me servia como uma luva. Comecei.

Percebi que a praia ia ficando cada vez mais vazia e alta. Quer dizer, entre o mar e a calçada, havia uma espécie de lombada de areia natural, que tapava a visão de quem estava na calçada dos banhistas que se esticavam próximos da àgua. Do meu lado direito, havia um clube de natação muito interessante, com quadras para frescobol, quadras de areia para um jogo que não sei o nome, piscina, cad-TRIM, TRIMM!

Que susto! Pessoas andando de bicicleta tocavam suas campainhas para que nós, transeuntes, saíssemos do caminho. Sem olhar, fui mais para a esquerda e fiquei observando. Eram cerca de dez pessoas. De bicicleta. Sem roupas. Protestando. Sim, sem roupa nenhuma. Sim, protestando. Não sei contra o quê, porque os escritos estavam na bunda dos cidadãos, e fiquei sem graça de encarar. Ou melhor, embundar.

Eles estacionaram suas bicicletas logo em seguida, e foi quando a ficha caiu. Estava numa parte da praia que é naturista. Não exclusiva, mas, como dizem por estas bandas, 'friendly', ou simpatizante. Deixei o clube pra lá e comecei a observar melhor a areia. E me arrependi.

Uma das piores visões da humanidade é um homem deitado, na areia, debaixo do sol, e peladão. O pinto ali, triste, feito língua de cachorro com calor, geralmente à esquerda, repousando, fritando, feito salsicha de churrasco. O saco... Ah, quanto saco. Falam muito da questão 'tamanho é documento?', mas o saco sempre fica de fora. Literalmente. E isso porque o tamanho é proporcional à ridiculeza da coisa. Quanto maior, mais triste. Cai-lhe bem o nome escroto. Fica lá, jogado, pendurado, enrugado. E com brisa gelada do mar, então, mais enrugado ainda! Parece... Parece... Quer ver como parece? Faz assim. Olha para a palma da sua mão. Agora, feche os dedos, como se fosse pegar uma pitada de sal. Tá vendo agora a palma da mão, como ficou? É esse o enrugado. E olha que eu estava longe! Parece a superfície da lua, sei lá.

E, pra piorar, tem que tomar sol como? De perninha aberta. Claro! Assim, as linhas das pernas desenham um triângulo retângulo cujo vértice principal é o dito cujo. Ai, ai. Mas enfim, observei tudo isso por vocês, os fieis seguidores deste pacato blog, que, depois deste post, despacatou geral. Enfim.

Homens, mulheres, idosos, jovens, todo mundo lá, como vieram ao mundo. Alguns mais do que outros - caso dos carecas e banguelas - mas, aparentemente, todos felizes, relaxados, aproveitando o calor de 25 graus da primavera catalã. Me deu inveja, de verdade. Me deu vontade de pisar a areia fofa, tirar tudo e me jogar no naturismo. Para a sorte de todos que estavam ali, não continuei com o plano. Fica para uma próxima vez.

Terminei minha caminhada, voltei pela mesma calçada. Revi bundas, pintos, peitos, pêlos. E sacos. Muitos sacos. Barcelona é um saco atrás do outro. Claro, diversos casais gays vem aproveitar a tolerância da cidade, principalmente nas areias quentes de Barceloneta.

Falando em Barceloneta, na volta, escutei um batuque bem baixo, lá, distante. Estava já cansado, querendo ir para casa, mas não resisti e fui atrás do som. E entrei nas ruelas de Barceloneta, e me deparei com o que parecia ser uma guerra de batuques.

Ainda não sei exatamente qual o motivo ou comemoração ou sei lá. Vou pesquisar e depois conto direito para vocês essa parte da história.

Na verdade, cheguei cheio de vontade de montar este post para contar esse passeio de hoje, que não teve nada de monumentos ou histórias medievais. O passeio de hoje, em síntese, foi um saco.

Estamos bem, amamos vocês.
Cuidem-se.

Besitos enrugados

Nando (e Mi, que poupou a retina das imagens de hoje, mas não poupará os ouvidos!)

domingo, 8 de maio de 2011

Barcelonando com a gente!

Foram mais de 20 horas de edição, escolha de repertório, renderização do material finalizado e upload no Youtube. Mas o resultado valeu a pena.

Rô. Dé. Esse é pra vocês! Mas todo mundo pode ver, claro.



E é isso aí. Amamos vocês, nos amamos, e tudo segue seu rumo. Aproveitando para mandar um beijo para todas as mães, principalmente as nossas. Dona Yara, dona Jô. Amamos vocês!

Besitos maternais

Nando (e Mi, que adorou e reviu o fim do vídeo umas 10 vezes)

sábado, 30 de abril de 2011

Atendendo a pedidos - Printemps à Paris

Passando só pra publicar este vídeo novo da Mi, atendendo a um pedido muito especial:



Estamos bem, amamos vocês.

Besitos (des)cafeinados

Nando (e Mi, já quase acordando. Eba!)

domingo, 24 de abril de 2011

Printemps à Paris

Finalmente consegui começar a editar o material bruto da nossa última viagem. Por enquanto é só um "teaser", mas eu me emocionei fazendo, e me emociono cada vez que vejo.


Quanto à última cena, meu querido amigo Juliano comentou comigo:
-Nando, eu gostei do filme. Mas a dancinha no final...

Eu, indignado, mas vencido, confessei:
-Eu sei, eu sei. Mas o que eu posso fazer se a Mirela não leva jeito pra coisa?

Vou editando e postando.
Amamos vocês!
Nos amamos!

Beijos parisienses.

Nando (e Mi, Lalolando...)